Tsutomu Yamaguchi é o único japonês reconhecido oficialmente pelo governo japonês como sobrevivente dos dois bombardeios atômicos. Em 6 e 9 de agosto de 1945, Hiroshima e Nagasaki foram alvos de destruição em massa, com cerca de 140 mil mortos em Hiroshima e 70 mil em Nagasaki. Aproximadamente 165 pessoas estiveram presentes em ambos os bombardeios, mas Yamaguchi foi o único oficialmente certificado. Neste artigo, vou mostrar a história extraordinária de sobrevivência de Tsutomu Yamaguchi, seus ferimentos, como ele sobreviveu duas explosões nucleares em três dias, as consequências da radiação e seu legado até sua morte aos 93 anos.
Quem foi Tsutomu Yamaguchi: o engenheiro naval de Nagasaki

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Vida e carreira na Mitsubishi antes de 1945
Nascido em 16 de março de 1916 em Nagasaki [1], Tsutomu Yamaguchi ingressou na Mitsubishi em 1930 [1][2]. Trabalhou como desenhista no projeto de navios petroleiros [1], função que exerceu durante 15 anos antes dos eventos que marcariam sua vida. Natural da própria cidade onde mantinha residência e emprego, Yamaguchi nunca imaginou que o Japão entraria em guerra [1].
A realidade, por outro lado, mostrou-se brutal. A indústria japonesa começou a sofrer pesadamente com a escassez de recursos e navios afundados [1]. O impacto da guerra afetou não apenas seu trabalho na Mitsubishi, mas também seu estado emocional. De tão abatido com o estado do país, Yamaguchi considerou matar sua própria família com uma overdose de pílulas para dormir, face à derrota iminente do Japão [1]. Este período revelou o peso psicológico que a guerra impunha sobre civis japoneses, mesmo aqueles distantes dos campos de batalha.
Viagem de negócios fatídica a Hiroshima
Por motivos profissionais, Yamaguchi foi enviado temporariamente a Hiroshima no verão de 1945 [1][3]. Aos 29 anos [4], ele passou três meses na cidade finalizando um projeto para a Mitsubishi Heavy Industries [1][4]. Sua expectativa era terminar o mais rápido possível e regressar à sua cidade natal para estar com sua família [2].
Depois da estadia prolongada, Yamaguchi preparava-se para deixar Hiroshima no dia 6 de agosto [1]. Na manhã daquele dia, às 8h15, dirigia-se à estação de trem quando percebeu que havia esquecido o hanko, seu selo de identificação pessoal, no escritório [4]. Retornou para buscar o documento, decisão que simultaneamente salvou e condenou sua vida [4].
Sem saber, aquele desvio de rota colocaria Yamaguchi em uma posição diferente na cidade no momento exato em que a Little Boy seria detonada. O engenheiro naval de Nagasaki caminhava pelas ruas de Hiroshima em seu último dia de viagem de negócios, completamente alheio ao fato de que se tornaria parte de um evento histórico sem precedentes.
O primeiro bombardeio: Tsutomu Yamaguchi em Hiroshima (6 de agosto de 1945)

Image Source: The National WWII Museum
O momento da explosão da Little Boy
Enquanto caminhava rumo às docas, Yamaguchi ouviu um zumbido distante no céu. Olhou para cima e viu um paraquedas caindo, seguido por um clarão que “apagou o sol” [4]. Às 8h15, o bombardeiro americano Enola Gay lançou a Little Boy sobre o centro de Hiroshima, a apenas 3 km de onde ele se encontrava [5]. A bomba de 13 quilotons detonou com força equivalente a 15 mil toneladas de TNT [1].
O engenheiro foi arremessado violentamente em uma vala de irrigação [4]. Diferente das 70 mil pessoas que morreram instantaneamente [4], Yamaguchi sobreviveu ao impacto inicial por puro instinto de proteção [4]. Uma das últimas imagens que registrou antes de desmaiar foi a formação do cogumelo atômico [6].
Ferimentos e queimaduras no corpo
A explosão rompeu os tímpanos de Yamaguchi e cegou-o temporariamente [5]. O calor intenso deixou queimaduras graves sobre o lado esquerdo, na parte superior de seu corpo [4]. Após horas de desmaio, arrastou-se para fora da vala sentindo dores por todo o corpo [4].
Sobrevivência em meio aos destroços
Junto com alguns colegas, ele pernoitou em um abrigo antiaéreo [4]. No abrigo, encontrou três colegas de trabalho, Akira Iwanaga e Kuniyoshi Sato, também sobreviventes [4]. Passaram a noite juntos compartilhando o trauma indescritível [4].
A jornada de volta para Nagasaki
Na manhã seguinte, 7 de agosto, o quarteto conseguiu chegar à estação de trem apesar dos ferimentos graves [4]. Desesperado para ver a esposa e o filho, Yamaguchi forçou o caminho até a estação, caminhando sobre cadáveres derretidos no asfalto [4]. Embarcaram na viagem de retorno a Nagasaki atravessando o país devastado [4].
Chegando em casa no dia 8, Yamaguchi recebeu tratamento médico para as queimaduras [4]. Foi enfaixado como uma múmia [4]. Apesar de não estar bem fisicamente, considerou-se capaz de voltar ao trabalho [4].
O segundo bombardeio: Nagasaki três dias depois

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Retorno ao trabalho apesar dos ferimentos
Na manhã de 9 de agosto, apesar de estar enfaixado e com dores intensas, apresentei-me ao trabalho na fábrica da Mitsubishi [1]. Os médicos haviam recomendado repouso absoluto, mas precisava ocupar a mente com algo além das imagens horríveis de Hiroshima. Às 11 horas, enquanto descrevia a destruição de Hiroshima para meu supervisor, ele mostrava-se incrédulo [7]. Segundo ele, seria impossível que uma única bomba destruísse uma cidade inteira.
A explosão da Fat Man sobre sua cidade natal
Naquele exato momento, um clarão penetrante iluminou a janela do escritório [4]. O bombardeiro americano Bockscar lançou a Fat Man sobre Nagasaki às 11h02 [8]. A bomba detonou a 469 metros sobre o solo, no vale industrial entre duas fábricas da Mitsubishi [5]. Cerca de 40 mil dos 240 mil habitantes morreram instantaneamente [5].
Como Tsutomu Yamaguchi sobreviveu duas vezes
Estava novamente a 3 km do ground zero [7]. Desta vez, contudo, saí fisicamente ileso da explosão [1]. A fábrica foi obliterada ao meu redor, mas desmaiara novamente e sobrevivera [2]. Minha esposa e nosso filho bebê também resistiram ao impacto [2]. Fiquei traumatizado demais para pronunciar qualquer palavra nos dias seguintes [2].
Consequências imediatas da dupla exposição à radiação
O problema maior surgiu porque não consegui substituir as ataduras que protegiam minhas queimaduras [7]. A infecção instalou-se rapidamente [2]. Passei mais de uma semana com febre alta e vômitos contínuos [7]. Meu corpo lutava contra uma dupla dose de radiação ionizante em níveis jamais experimentados por um ser humano [4]. Permaneci constantemente enfaixado durante anos, conforme minha filha recordaria posteriormente [7].
Vida após as bombas: saúde, família e reconhecimento oficial
Sequelas físicas permanentes de Tsutomu Yamaguchi
Perdi permanentemente a audição do ouvido esquerdo [1]. Fiquei temporariamente calvo após os bombardeios [1]. Minha filha lembra que permaneci constantemente enfaixado até ela completar 12 anos [1]. Apesar dos danos físicos graves, demonstrei resiliência extraordinária recuperando-me lentamente [4].
Entretanto, no final da vida, comecei a sofrer de doenças relacionadas à radiação, incluindo catarata e leucemia aguda [1]. Posteriormente desenvolvi câncer no estômago [6].
Impacto da radiação na esposa e filhos
Minha esposa Hisako, sobrevivente do bombardeio de Nagasaki, morreu em 2008, aos 88 anos de idade, de câncer de rim e fígado, depois de uma vida de doenças [1]. Meu filho Katsutoshi, nascido em 1946, sofreu problemas de saúde graves a vida inteira morrendo em 2005 [4]. Minhas filhas Toshiko e Naoko também enfrentaram complicações médicas relacionadas à exposição parental à radiação [4].
Décadas de silêncio sobre o trauma
Traumatizado, fui incapaz de falar sobre o assunto por quase 50 anos [2]. Depois do fim do conflito, trabalhei como tradutor para o exército aliado [2]. O estigma social contra os hibakusha tornava difícil falar abertamente [4].
Reconhecimento como hibakusha e ativismo nuclear
Quando o governo japonês criou o conceito legal de hibakusha em 1957, a identificação mencionava apenas minha presença em Nagasaki [4]. Em janeiro de 2009, requeri reconhecimento do que me aconteceu, aceito em março de 2009 [1]. Isso me tornou na única pessoa oficialmente reconhecida como sobrevivente de ambos os ataques nucleares [1].
Falando sobre o reconhecimento, disse: “Minha exposição à radiação dupla é agora um registro oficial do governo. Podem dizer a gerações mais jovens da história de horror dos bombardeios atômicos, mesmo depois de eu morrer” [1].
Tornei-me defensor ativo do desarmamento nuclear [1]. Em uma entrevista disse: “A razão que eu odeio a bomba atômica é por causa do que ela faz para a dignidade dos seres humanos” [1]. Com 90 anos, viajei até Nova Iorque discursando perante audiência no edifício das Nações Unidas [2]. Surgi em documentários sobre as explosões [2].
Morte em 2010 e legado histórico
Faleci em 4 de janeiro de 2010 aos 93 anos, vítima de câncer no estômago [4]. Vivi seis décadas além das expectativas médicas para alguém exposto a níveis massivos de radiação [4]. O prefeito de Nagasaki, Tomihisa Taue, lamentou que “um excelente contador de histórias” desapareceu [6].
Conclusão
A história de Tsutomu Yamaguchi desafia qualquer probabilidade estatística. Sobreviver a duas bombas atômicas em três dias representa um feito único na história da humanidade. Sem dúvida, seu legado transcende a sobrevivência física: transformou sua experiência traumática em mensagem poderosa contra armas nucleares. Mesmo décadas após sua morte, seu testemunho continua alertando gerações sobre os horrores da guerra atômica e a importância do desarmamento nuclear global.
FAQs
Q1. Quantas pessoas sobreviveram aos dois bombardeios atômicos no Japão? Aproximadamente 165 pessoas estiveram presentes em ambos os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, mas Tsutomu Yamaguchi foi o único oficialmente reconhecido pelo governo japonês como sobrevivente dos dois ataques nucleares.
Q2. Quais foram os ferimentos que Tsutomu Yamaguchi sofreu em Hiroshima? Yamaguchi sofreu queimaduras graves no lado esquerdo da parte superior do corpo, teve os tímpanos rompidos e ficou temporariamente cego devido à explosão. Ele estava a apenas 3 km do epicentro quando a bomba Little Boy foi detonada.
Q3. Por que Tsutomu Yamaguchi estava em Hiroshima no dia do bombardeio? Yamaguchi estava em Hiroshima a trabalho, tendo sido enviado pela Mitsubishi Heavy Industries para finalizar um projeto de navio petroleiro. Ele passou três meses na cidade e estava se preparando para retornar a Nagasaki no dia 6 de agosto de 1945.
Q4. Como a radiação afetou a família de Tsutomu Yamaguchi? Sua esposa Hisako morreu em 2008 de câncer de rim e fígado após uma vida de doenças. Seu filho Katsutoshi faleceu em 2005 depois de sofrer problemas de saúde graves a vida inteira, e suas filhas também enfrentaram complicações médicas relacionadas à exposição parental à radiação.
Q5. Quando Tsutomu Yamaguchi recebeu reconhecimento oficial como sobrevivente duplo? Yamaguchi recebeu reconhecimento oficial do governo japonês em março de 2009, tornando-se a única pessoa oficialmente certificada como sobrevivente de ambos os bombardeios atômicos. Ele havia solicitado esse reconhecimento em janeiro do mesmo ano, já que inicialmente sua identificação como hibakusha mencionava apenas sua presença em Nagasaki.
Referências
[1] – https://pt.wikipedia.org/wiki/Tsutomu_Yamaguchi
[2] – https://www.nationalgeographic.pt/historia/hiroxima-nagasaqui-japao-homem-que-sobreviveu-duas-vezes-tsutomu-yamaguchi_4065
[3] – https://oantagonista.com.br/ladooa/entretenimento/tsutomu-yamaguchi-o-homem-que-sobreviveu-a-duas-bombas-atomicas/
[4] – https://clickpetroleoegas.com.br/o-homem-que-sobreviveu-a-duas-bombas-atomicas-em-3-dias-tsutomu-yamaguchi-escapou-de-hiroshima-e-voltou-para-nagasaki-onde-enfrentou-segundo-ataque-nuclear-vml97/
[5] – https://www.facebook.com/contatoimediato/posts/-x-fat-man-em-português-homem-gordo-é-código-da-bomba-atómica-lançada-sobre-naga/883474250691310/
[6] – https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2010/01/100106_sobrevivente_bombas_japao_rw
[7] – https://en.wikipedia.org/wiki/Tsutomu_Yamaguchi
[8] – https://blog.ofitexto.com.br/outros/caracteristicas-e-efeitos-das-bombas-atomicas-lancadas-no-japao/