A formação dos raios é um fenômeno especialmente impressionante no Brasil, que lidera o ranking mundial de incidência com uma média de 78 milhões de raios por ano. Essas descargas elétricas alcançam voltagens entre 100 milhões e 1 bilhão de Volts e geram temperaturas de quase 30 mil graus Celsius. Entender como se formam os raios, o que são raios exatamente e como acontecem os raios é fundamental para compreender por que certos objetos e locais são mais vulneráveis a essas poderosas manifestações da natureza.
Neste artigo, vou explicar o processo completo de formação de raios, desde a colisão de partículas nas nuvens até a descarga que atinge o solo, e por que estruturas altas são alvos preferenciais.
O que são raios e tipos de descargas elétricas

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Um raio é uma descarga elétrica de grande intensidade que ocorre na atmosfera entre regiões com cargas elétricas opostas. Essas descargas podem acontecer dentro de uma mesma nuvem, entre nuvens diferentes ou entre uma nuvem e o solo. Basicamente, a classificação dos raios depende do local onde se originam e onde terminam seu percurso.
Raios nuvem-solo
Os raios nuvem-solo são os mais conhecidos porque afetam diretamente a superfície. Embora sejam o segundo tipo mais comum, representam apenas entre 7,5% e 20,4% do total de raios [1]. Esses raios podem ser negativos ou positivos, dependendo da polaridade da carga transferida.
Os raios nuvem-solo negativos equivalem a cerca de 90% das descargas deste tipo [2]. Originam-se em regiões carregadas negativamente no interior das nuvens e descarregam no solo. A corrente da descarga inicial é tipicamente de 30 quiloampères (kA) [3].
Por outro lado, os raios nuvem-solo positivos são mais raros, mas consideravelmente mais destrutivos. Eles se formam principalmente em nuvens do tipo cúmulo-nimbo e podem atingir picos de corrente de 200 kA [2], quase sete vezes mais intensos que os negativos.
Raios entre nuvens
Este é o tipo mais frequente de descarga elétrica atmosférica. Os raios intranuvem ocorrem dentro de uma mesma nuvem de tempestade, quando um canal precursor surge no núcleo negativo da parte inferior e segue para cima, onde se concentram as cargas positivas [3].
Com duração típica de 0,2 segundo, essas descargas apresentam um brilho quase contínuo [3]. A carga total transferida num raio intranuvem é da mesma ordem que a dos raios nuvem-solo [3].
Os raios internuvens acontecem entre duas nuvens de tempestade diferentes que possuem cargas elétricas opostas.
Raios solo-nuvem
Os raios ascendentes ou solo-nuvem representam menos de 1% do número total de raios que estabelecem contato com o solo [3]. Eles se originam de estruturas altas, como torres de telecomunicação ou antenas no topo de montanhas, e se propagam em direção às nuvens.
Cerca de 90% dos raios ascendentes são negativos [4]. Eles são iniciados por um líder positivo que emerge de uma estrutura no solo e se propaga em direção à base da nuvem. A duração desse tipo de descarga é aproximadamente duas vezes maior que os raios descendentes [3], produzindo danos diretos nas estruturas atingidas.
Como se formam os raios nas nuvens
Dentro das nuvens de tempestade do tipo cumulonimbus, coexistem gotículas de água super-resfriada, cristais de gelo pequenos e partículas maiores como granizo ou graupel. O processo de eletrificação dessas nuvens ainda gera discussão no meio acadêmico, mas a teoria não-indutiva é atualmente a mais aceita pela comunidade científica.
Colisão de partículas e separação de cargas
A teoria não-indutiva, também conhecida como teoria Reynolds-Brook-Gourley, sugere que a nuvem de tempestade gera separação de cargas elétricas pelo choque entre partículas de gelo sem a necessidade da pré-existência de um campo elétrico [2]. Durante essas colisões, ocorre transferência de carga devido à troca de massa entre as partículas.
Para regiões da nuvem com temperaturas abaixo de -15°C, o granizo fica carregado negativamente e o cristal de gelo fica carregado positivamente após a colisão [2]. Em regiões com temperaturas acima de -15°C, o inverso ocorre [2]. Por ser mais pesado, o granizo permanece nos níveis médios e baixos da nuvem, enquanto os cristais leves são levados para cima pelas correntes ascendentes. Dessa forma, a maioria das nuvens de tempestade apresenta um centro de cargas negativas embaixo e um centro de cargas positivas na parte superior.
Formação do campo elétrico
À medida que as cargas se acumulam, a diferença de potencial entre as regiões carregadas da nuvem e o solo aumenta significativamente [5]. As cargas negativas na base da nuvem induzem cargas positivas no solo abaixo por indução eletrostática. Essa polarização cria um campo elétrico que pode atingir valores entre 100 e 1000 MV [6].
Ionização do ar e criação do canal de plasma
Quando o campo elétrico atinge aproximadamente 3 milhões de volts por metro [7], o ar entre as cargas é ionizado. Os átomos do ar perdem elétrons e se tornam íons, diminuindo a resistência à passagem de corrente elétrica [5]. Forma-se então um canal de plasma com alta temperatura e luminosidade [5], permitindo a descarga elétrica que caracteriza os raios.
Como acontecem os raios: o caminho até o solo

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Após a ionização inicial dentro da nuvem, inicia-se o percurso descendente que define como acontecem os raios até atingirem a superfície terrestre.
O líder escalonado
A descarga se propaga em direção ao solo através de um processo denominado líder escalonado. Esse líder avança em etapas de aproximadamente 50 a 100 metros [1], com pausas de cerca de 50 microssegundos entre cada passo [8]. A velocidade média é de 400.000 km/h [8], criando um canal tortuoso e ramificado. A corrente transportada é de algumas centenas de ampères, com pulsos de pelo menos 1 kA correspondentes a cada etapa [8]. O líder escalonado transporta dez ou mais coulombs de carga e aproxima-se do solo em média em 20 ms [8].
O líder ascendente
Quando o líder escalonado chega a uma distância tipicamente menor que 150 metros do solo [9], ocorre intensificação do campo elétrico abaixo de suas ramificações. Essa intensificação induz a formação de líderes ascendentes provenientes de protuberâncias como construções, árvores ou pessoas [9]. Esses líderes ascendentes possuem correntes da ordem de dezenas de ampères [9] e podem ser iniciados simultaneamente de vários locais.
A descarga de retorno
Quando um líder ascendente se conecta ao líder descendente, ocorre a descarga de retorno, a etapa mais intensa e luminosa do raio [9]. A velocidade de propagação é de cerca de 40.000 km/h [8], aproximadamente um terço da velocidade da luz. A corrente atinge picos médios de 30 kA [8], com duração de aproximadamente 70 microssegundos [10].
Raios múltiplos no mesmo local
Após a primeira descarga, podem ocorrer descargas de retorno subsequentes que normalmente percorrem o mesmo canal ionizado [11]. Em média, um raio negativo possui de 3 a 6 descargas de retorno [8], sendo que já foram registrados casos com até 26 descargas em um único raio [8]. O primeiro raio abre o caminho para os seguintes, facilitando o movimento ao diminuir a resistência ao longo do trajeto previamente aberto [12].
Por que objetos altos são atingidos por raios
O que determina a probabilidade de uma construção ser atingida é sua altura, não o material de que ela é feita [13]. Portanto, estruturas metálicas não atraem raios por serem condutoras, mas sim por serem altas.
O papel da altura na formação do canal
A altura relativa do objeto em relação ao solo é o fator determinante [14]. Raios sempre caem na estrutura mais alta disponível. Árvores isoladas atraem mais descargas que cercas e animais na mesma região [14]. Estruturas com altura superior a 100 metros, cujas pontas potencializam o campo elétrico induzido, conseguem dar início a descargas precursoras que sobem verticalmente rumo à nuvem [15].
Objetos que funcionam como para-raios naturais
Árvores altas com copas largas que se destacam acima do dossel tendem a ser alvos preferenciais em tempestades [3]. A posição também é determinante: árvores isoladas em campo aberto, no topo de morros ou margens de lagos recebem descargas com maior frequência [4].
Como o campo elétrico se intensifica próximo ao solo
Em condutores pontiagudos, as cargas elétricas se concentram nas extremidades [16]. Esse fenômeno, chamado poder das pontas, faz com que o campo elétrico e a densidade de cargas sejam muito maiores nas extremidades de qualquer objeto pontiagudo [17]. Dessa forma, a região ao redor dessas pontas apresenta um campo elétrico mais intenso [18], aumentando a probabilidade de conexão com o líder descendente.
Conclusão
Como você pôde ver, a formação dos raios é um processo complexo que envolve colisão de partículas, separação de cargas e ionização do ar. Certamente, entender esse fenômeno é especialmente relevante para nós brasileiros, já que vivemos no país com maior incidência de raios do mundo. A altura das estruturas determina sua vulnerabilidade, não o material de construção. Essencialmente, quanto mais alto o objeto, maior a probabilidade de ser atingido durante uma tempestade.
FAQs
Q1. Como ocorre o processo de formação dos raios? Os raios se formam quando partículas de gelo e granizo colidem dentro das nuvens de tempestade, criando uma separação de cargas elétricas. As cargas negativas se acumulam na base da nuvem enquanto as positivas ficam no topo. Quando a diferença de potencial atinge cerca de 3 milhões de volts por metro, o ar é ionizado e forma-se um canal de plasma que permite a descarga elétrica entre a nuvem e o solo.
Q2. Por que os raios atingem preferencialmente objetos e estruturas mais altas? Os raios procuram o caminho mais curto entre a nuvem e a terra, e objetos altos reduzem essa distância. Estruturas elevadas como torres, antenas, edifícios e árvores isoladas facilitam a formação do líder ascendente, que se conecta ao líder descendente vindo da nuvem. A altura é o fator determinante, não o material do objeto.
Q3. Qual é a diferença entre raios nuvem-solo e raios entre nuvens? Os raios nuvem-solo representam entre 7,5% e 20,4% do total e atingem diretamente a superfície terrestre, sendo os mais perigosos para pessoas e estruturas. Já os raios entre nuvens são os mais frequentes, ocorrendo dentro de uma mesma nuvem ou entre nuvens diferentes, sem atingir o solo. Ambos resultam da separação de cargas elétricas na atmosfera.
Q4. Como o campo elétrico se intensifica próximo a objetos pontiagudos? Em objetos pontiagudos, as cargas elétricas se concentram nas extremidades devido ao fenômeno chamado “poder das pontas”. Isso faz com que o campo elétrico e a densidade de cargas sejam muito maiores nessas regiões, aumentando significativamente a probabilidade de conexão com o líder descendente do raio durante uma tempestade.
Q5. Quantas descargas podem ocorrer em um único raio? Um raio negativo possui em média de 3 a 6 descargas de retorno que percorrem o mesmo canal ionizado, mas já foram registrados casos com até 26 descargas em um único raio. Após a primeira descarga abrir o caminho, as descargas subsequentes aproveitam o canal já formado, que apresenta menor resistência elétrica.
Referências
[1] – https://www.weather.gov/safety/lightning-science-initiation-stepped-leader
[2] – https://www.tempo.com/noticias/ciencia/como-as-nuvens-de-tempestade-ficam-eletricamente-carregadas.html
[3] – https://olhardigital.com.br/2025/08/21/olha-isso/essas-arvores-gostam-de-raios-e-evoluiram-para-atrai-los/
[4] – https://www.tupi.fm/entretenimento/certas-arvores-sao-atingidas-por-raios-repetidas-vezes-e-o-motivo-chama-atencao/
[5] – https://www.rsdata.com.br/como-ocorre-a-formacao-de-raios-e-como-se-proteger/
[6] – https://www.reddit.com/r/AskPhysics/comments/1qwksnr/why_can_lightning_span_kilometers_if_air_ionizes/?tl=pt-br
[7] – https://plataformaassaad.com.br/questao-79-caderno-branco-9-enem-2016-ppl/
[8] – http://www2.simepar.br/rindat/internas/conteudo/faq_cont.shtml
[9] – https://www.scielo.br/j/rbef/a/XjVbfs9sWkM9sCPyqh8FTQf/?lang=pt
[10] – http://mtc-m21c.sid.inpe.br/col/sid.inpe.br/mtc-m21c/2020/07.23.19.56/doc/Shailine Fonseca Viegas.pdf
[11] – https://www.iee.usp.br/noticia/descargas-atmosfericas-conheca-seus-impactos-e-os-sistemas-de-protecao/
[12] – https://www.nationalgeographic.pt/ciencia/podera-raio-cair-duas-vezes-no-mesmo-sitio_4131
[13] – https://calculistadeaco.com.br/estruturas-metalicas-atraem-raios/
[14] – https://cenacid.ufpr.br/wp-content/uploads/2017/07/Saiba-como-agir-RAIOS.pdf
[15] – https://pt.wikipedia.org/wiki/Raio_(meteorologia)
[16] – https://brasilescola.uol.com.br/fisica/o-pararaios.htm
[17] – https://www.preparaenem.com/fisica/poder-das-pontas-pararaios.htm
[18] – https://mundoeducacao.uol.com.br/fisica/o-poder-das-pontas.htm