Animal Imortal: O Segredo da Criatura Que Nunca Envelhece

A maioria dos organismos sofre um processo de deterioração com o avanço da idade, mas existe um animal imortal que desafia essa regra. A água-viva Turritopsis dohrnii possui a capacidade extraordinária de reverter seu próprio ciclo de vida, retornando à fase inicial de desenvolvimento quando enfrenta situações extremas. Esse fenômeno, chamado imortalidade biológica, ocorre através da transdiferenciação, processo no qual células especializadas se transformam em outros tipos celulares. De fato, estudos em laboratório mostraram que colônias da espécie conseguiram repetir esse processo até dez vezes em um período de dois anos. Neste artigo, vamos explorar como funciona esse mecanismo de rejuvenescimento celular e conhecer outros animais biologicamente imortais que fascinam cientistas há décadas.

O que é imortalidade biológica e qual animal a possui

Image Source: American Museum of Natural History

Imortalidade biológica refere-se à ausência de um aumento sustentável da taxa de mortalidade em função da idade cronológica [1]. Uma célula ou organismo que não experimenta envelhecimento, ou que em algum momento para de envelhecer, é considerado biologicamente imortal [1]. Diferente da imortalidade absoluta, esse conceito não garante vida eterna, pois o organismo ainda pode morrer por predação, doenças ou mudanças ambientais drásticas.

O animal imortal mais conhecido é a Turritopsis dohrnii, uma água viva imortal descoberta na década de 1880 no Mar Mediterrâneo [2]. Minúscula e medindo apenas alguns milímetros, essa espécie consegue reverter seu ciclo de vida ao enfrentar condições adversas. Encontrada inicialmente em águas mediterrâneas, a Turritopsis dohrnii agora habita diversos oceanos devido à água de lastro despejada de navios [2].

Além da água viva imortal, existe outro animal biologicamente imortal que chama atenção dos cientistas: a Hydra vulgaris, um invertebrado milimétrico que vive em águas doces e limpas [3]. A diferença entre esses animais e os demais organismos está na capacidade de evitar a senescência, processo biológico caracterizado pela perda gradual da habilidade celular de se dividir e renovar [3]. A Hydra vulgaris renova todas as suas células a cada 20 dias, inclusive as células-tronco [3]. Conforme explica a pesquisadora Mônica Lopes-Ferreira, “se esses bichos não forem predados e nem passarem por nenhum tipo de catástrofe ambiental, eles podem, sim, viver por um período infindável” [3].

Como funciona o mecanismo de rejuvenescimento celular

Quando a Turritopsis dohrnii enfrenta estresse ambiental, lesões físicas ou envelhecimento, seu corpo inicia um processo de reorganização celular profundo. A medusa adulta contrai o corpo, perde sua forma típica, fixa-se em uma superfície e torna-se um aglomerado celular que se reorganiza como pólipo [1]. Esse fenômeno envolve a transdiferenciação, processo no qual células maduras mudam de função e voltam a comportar-se como células jovens.

No nível genético, alguns genes param de se expressar enquanto outros são ativados durante a reversão [3]. O gene GLI3, envolvido na diferenciação de células-tronco pluripotentes, aparece em destaque: a Turritopsis dohrnii possui duas vezes mais cópias desse gene do que a Turritopsis rubra, e todas estão ativas no momento da reversão [3]. Além disso, a água viva imortal tem o dobro do número de genes associados ao reparo e proteção do DNA, com mutações que impedem a divisão celular inadequada e protegem os telômeros [4].

Pesquisadores da Universidade de Bergen descobriram acidentalmente que a água-viva-de-pente (Mnemiopsis leidyi) também pode rejuvenescer [5]. Sob estresse extremo, essas criaturas revertem seu desenvolvimento, transformando-se de adultos para larvas, com comportamentos típicos de larvas jovens [5]. Analogamente à Turritopsis dohrnii, esse mecanismo permite que o organismo inteiro se reestruture, não apenas um tecido isolado.

Outros animais biologicamente imortais ou com longevidade extrema

Planárias são vermes planos que impressionam pela capacidade regenerativa quase ilimitada. Quando cortados, cada fragmento pode regenerar um organismo completo graças às células-tronco neoblastas espalhadas por todo o corpo [6]. Um tipo específico chamado Nb2 aumenta rapidamente em número após lesões, produzindo a proteína Tetraspanina que facilita a comunicação celular e o reparo tecidual [6]. Estudos mostram que fragmentos de ambas as espécies Girardia tigrina e Girardia sp. conseguem regeneração completa em 7 a 11 dias [7].

Enquanto isso, a tartaruga-de-Blanding apresenta senescência insignificante. Estudos de campo não encontraram aumento nas taxas de mortalidade com a idade [8]. Espécimes do grupo mais velho apresentaram maior frequência reprodutiva e tamanho de ninhada ajustado comparado aos grupos mais jovens [9]. Essa espécie pode viver até 77 anos na natureza [8].

O rougheye rockfish alcança 205 anos com taxa de envelhecimento quase nula [10]. Igualmente impressionante, o tubarão-da-Groenlândia vive mais de 400 anos [11]. Pesquisas com 52 espécies de tartarugas revelaram que 75% apresentam envelhecimento insignificante [12]. Jonathan, uma tartaruga-gigante-de-aldabra, vive há 190 anos e superou a expectativa de 120 anos para sua espécie [13].

Conclusão

A imortalidade biológica da Turritopsis dohrnii e de outras espécies nos mostra que o envelhecimento não é uma regra universal na natureza. De fato, esses organismos extraordinários desenvolveram mecanismos celulares que desafiam nossa compreensão tradicional sobre o ciclo de vida. As descobertas sobre transdiferenciação, regeneração celular e senescência insignificante abrem portas para futuras pesquisas sobre longevidade. Enquanto esses animais continuam fascinando cientistas, suas capacidades únicas podem eventualmente revelar segredos valiosos sobre o processo de envelhecimento humano.

FAQs

Q1. Qual é o único animal verdadeiramente imortal? A água-viva Turritopsis dohrnii é o único animal comprovadamente imortal. Ela possui a capacidade extraordinária de reverter seu ciclo de vida, retornando à fase de pólipo quando enfrenta condições adversas como estresse, lesões ou envelhecimento. Esse processo pode se repetir indefinidamente, tornando-a biologicamente imortal.

Q2. Como funciona o processo de rejuvenescimento da água-viva imortal? Quando a Turritopsis dohrnii enfrenta situações extremas, ela passa por um processo chamado transdiferenciação. A medusa adulta contrai o corpo, perde sua forma típica, fixa-se em uma superfície e se reorganiza como pólipo. Durante esse processo, células maduras mudam de função e voltam a comportar-se como células jovens, permitindo que o organismo se reestruture completamente.

Q3. A água-viva imortal retém memórias após o rejuvenescimento? Não há evidências científicas de que a Turritopsis dohrnii retenha memórias após o processo de reversão. Durante a transdiferenciação, o organismo passa por uma reorganização celular profunda, transformando-se de medusa adulta em pólipo, o que sugere uma reestruturação completa do sistema.

Q4. Existem outros animais além da água-viva que são biologicamente imortais? Sim, existem outros organismos com características semelhantes. A Hydra vulgaris renova todas as suas células a cada 20 dias e pode viver indefinidamente se não for predada. As planárias possuem capacidade regenerativa quase ilimitada graças às células-tronco neoblastas. Além disso, algumas tartarugas e peixes apresentam senescência insignificante, vivendo centenas de anos sem sinais significativos de envelhecimento.

Q5. O que é imortalidade biológica e como ela difere da imortalidade absoluta? Imortalidade biológica refere-se à ausência de envelhecimento ou aumento da taxa de mortalidade com a idade. Diferente da imortalidade absoluta, ela não garante vida eterna, pois o organismo ainda pode morrer por predação, doenças ou mudanças ambientais drásticas. É a capacidade de evitar a senescência, mas não a invulnerabilidade total.

Referências

[1] – https://oantagonista.com.br/ladooa/entretenimento/essa-agua-viva-ignora-a-morte-e-pode-ser-a-melhor-pista-que-temos-da-imortalidade/
[2] – https://www.bbc.com/portuguese/curiosidades-62344798
[3] – https://oglobo.globo.com/mundo/epoca/noticia/2022/08/pesquisadores-espanhois-decifram-o-genoma-da-agua-viva-imortal.ghtml
[4] – https://ofuturodascoisas.com/decifrado-genoma-de-agua-viva-imortal-que-pode-dar-pistas-sobre-o-envelhecimento-humano/
[5] – https://noticias.r7.com/tecnologia-e-ciencia/ciclo-da-imortalidade-cientistas-descobrem-agua-viva-que-reverte-envelhecimento-11112024/
[6] – https://www.facebook.com/contatoimediato/posts/planária-mecanismo-de-regeneraçãoimagem-de-uma-planária-e-sua-capacidade-de-rege/740624951642908/
[7] – https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BJAER/article/view/22148
[8] – https://genomics.senescence.info/species/entry.php?species=Emydoidea_blandingii
[9] – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11295515/
[10] – https://exame.com/ciencia/este-animal-pode-viver-200-anos-e-nem-parece-que-envelheceu/
[11] – https://www.instagram.com/p/DOTdnaBE4BY/
[12] – https://istoedinheiro.com.br/criaturas-de-sangue-frio-como-as-tartarugas-nao-envelhecem-apontam-estudos
[13] – https://jornal.usp.br/atualidades/tartarugas-vivem-mais-por-caracteristicas-geneticas-e-sistema-imune-eficiente/

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